sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Poemas Classificados 2017 - 054 e Trovas Classificadas 2017 - 03 a 07 (N° 570 - Ano IV)


Gerânios. Foto: Francisco Ferreira.

Seleta de Trovas

Não entendo esta premissa
que vejo em alguns cristãos,
no afã de fazer justiça
querer matar os irmãos.
***
Ao ver um filho faminto
decerto dirá Jesus:
mesmo no céu inda sinto
nos ombros pesar-me a cruz.
***
Quando a morte nos alcança
numa hora inesperada,
devemos deixar de herança
bons exemplos e mais nada.
.
***
Saudade é trazer presente
aquilo que não é mais.
Reviver no inconsciente
o que não volta jamais.

                                  

Doação

Vou desfazendo-me.
Pedaço por pedaço, perco-me
um fragmento novo a cada passo.
Só para que me encontres
e construa-me homem novo
no teu amor.

Deixo-te minha alma
a caminho de casa,
o coração sob os lençóis
e um amor tão grande
que não cabe em lugar algum
senão ao lado do teu.

Pega! É por ti.

Classificado no XVII Concurso Nacional PoeArt de Literatura – 2017 para a edição do livro Vozes de Aço (XIX Antologia Poética de Diversos Autores), organização JEAN CARLOS GOMES, Volta Redonda (RJ), em 24/8/17.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Textos Classificados 2017 - 013 (N.º 569 - Ano IV)





O NEGÓCIO DA MOÇA





Há alguns anos, havia uma categoria de trabalhador nas fazendas daqui das Gerais, intitulada de Bobo de Fazenda. Normalmente tratava-se de homem com alguma deficiência ou solteirão que morava nas fazendas e fazia os trabalhos que os donos achavam-se muito “qualificados” para fazê-los ou que pensavam tratar-se de rotina desimportante, para as quais não compensasse pagar um diarista. O Bobo geralmente não era remunerado pelos seus trabalhos ou, quando remunerado, era bem abaixo do valor correto e justo. Alguma semelhança com a vida atual?


Toda Fazenda que se prezasse tinha por obrigação de ter o seu Bobo, algumas, até mais de um. Faziam gaiolas, alçapões, arapucas, balaios; cuidavam das galinhas poedeiras e chocadeiras, alimentavam porcos e cachorros; pegavam cavalos, varriam terreiros e fornos; carregavam água, lavava vasilhas, acendiam fogo; e, o mais importante, serviam de companhia para as donas de casa, as moças e as crianças em geral. Muitos eram maltratados, apanhavam, sofriam castigos e toda sorte de malvadezas dos fazendeiros, seus filhos e lacaios. Mas criavam uma certa identidade com a Fazenda, muitos deles sendo capazes até de morrer pelas causas do local e de seus donos.


Na Fazenda do avô da Duxa, moça donzela, amante da cachaça e da boa prosa, o Bobo era Cutelo. Dom Cutelo, o Filósofo, para ser mais exato e fazer justiça às peripécias do rapaz. Alto e magro, parecendo um caniço, cabeça pequenina e coração enorme, dado a bebedeiras e bravatas, arrotava valentia, sem contudo, fazer mal nem sequer a uma mosca ou formiga. Era inofensivo e fiel como um cãozinho de madame.


Certa feita, numa roda de truco e cachaçada, a moça donzela Duxa, contou-nos esta história do filósofo:


Lá pelo tempo do onça, quando era permitido aos candidatos fazerem festas regadas a chope, churrasco e forró, as campanhas políticas lá na roça eram animadas. Vinha gente da cidade, principalmente as FULANetes (que eram moças desfrutáveis que aderiam a um ou outro candidato) e, literalmente, o pau quebrava. Se não quebrasse, pelo menos vergava.


Bão, numa destas tais, o amigo Cutelo, deu de mão numa das “desfrutáveis”, loiríssima, vestida sumariamente e de trejeitos duvidosos. Mas para o filósofo era o céu. Chamou pra sofrer uma peça, ela foi. Deu “imbigada”, ela correspondeu. Chamou pra tomar uma “celveja”, ela foi. E, de repente, foi...


Meia hora depois, o povo se alvoroça e alguém grita:


-- Acuda gente quiu Cutelo descangota a moça.


Corro para ver o que era e encontro o nosso filósofo de socos e pontapés na loura. Puxo o amigo de lado e "passo o pito":


--Quêquéisso, Dom Cutelo? O senhor então bate em mulher agora? Desafasta! Toma tento!


No que o Filósofo, bufando de raiva, mas já na unha do povo, desabafa:


-- I num é pra mode batê, Dona Duxa? I num é? Magina a sinhora quieu tô cum ela lá no Beco do Binidito, de boa intenção, namorano filme, pensano inté pidi casamento. Cunversa vai, cunversa vem, passamão no cangotim dela e ela dexa. Passamão na barriguinha dela e ela dexa. Aí, já viu, né? Fiquei intusiasmado, quereno pruquê quereno. Quandeu levo a mão lá... Creeeeeeeeemdospade!!! Mari valeme!!! As coisa dela é maió que as minha, Dona Duxa!  É maió quias minha!


E arrematou, dona Duxa:


--Tadim, gente! Ô dó!


 Classificado para a antologia 1º Painel de Contos Premiados - Edição 2017 da Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) - Rio de Janeiro (RJ), em 23/8/17.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Poemas Classificados 2017 - 053 (N.º 568 - Ano IV)





Apelo a Tânatos

Sob a Égide da Cruz
Zeus destronado já não mais pode
Provocar os vômitos de Cronos,
E o nosso destino é ser lentamente devorados!
...esperança não há!

Quisera a sorte de Diomedes
e ser estraçalhado nos dentes
Das putas devoradoras de homens,
Mas só me resta a lápide,
O cortejo e a perene condenação!
...salvação não há!

De águas estancadas, Lete não banha
E para as sujas sombras dos mortos
Somente o repaginado reino de Hades
Num inferno de fogo.
...esquecimento não há!

As algemadas Moiras não me tecem sequer um fio
E nos meus bolsos pobres


Não tilintam moedas para o barqueiro,
Reinam absolutos Momo e Oizus
E nosso único quinhão possível é zombaria e miséria...
...vida não há!

Classificado para a antologia 1º Painel de Poemas Premiados - Edição 2017 - da Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) - Rio de Janeiro (RJ), em 23/8/17.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Poemas Classificados 2017 - 052 (N.º 567 - Ano IV)




Ceifador



O espantalho do outro lado do espelho

enlaça-me em abraços de feno

e bailamos sobre cabeças de gelo

na Stalingrado arrasada.

Meu cérebro de capim

capta em antenas de vespas

vestais de Atenas

em pensamentos de flor e mel.



Minhas más intenções balouçam

como folhas no vale das pirâmides

a conceber cartadas de amor.

Num horizonte de pedra e pólen

o orvalho matinal prenuncia

dias de sol, doiradas farturas.



Saldamos as dívidas mútuas

no sal de Ló, à entrada de Gomorra,

para que limpos adentremos o submundo

num ajuste final com Hades

que nos permita vermos no olho

das tecelãs do Olimpo.

E não nos faltem amor em grãos

espigas de paz, na farta seara de bênçãos

das estações que se avizinham.



Antes que as valquírias nos colham,

aos pedaços, do interior de Cronos.


 Classificado para a Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos - Vol. 153;da Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) - Rio de Janeiro (RJ), em 23/8/17.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Textos Publicados 2017 - 049 (N.º 566 - Ano IV)


Mariposa. Foto: Francisco Ferreira.

O Curriculum



Um amigo nosso estava atravessando uma fase de extrema pindaíba, "sem dinheiro nem pra andar a pé", ou conforme ele mesmo dizia: “sem uma prata no borso pra cerca um padeiro”, quando chega na cidade uma construtora, que montou escritório com um engenheiro magricela e um auxiliar de escritório reumático, recrutando empregados para as obras de uma represa na região.  Não deu outra: lá foi o amigo se inscrever como orêia seca. Passaram-se três dias, nem o amigo e nem notícias do amigo, meu avô que era seu padrinho de batismo, mandou saber dele na cidade e veio a bomba: o afilhado havia sido preso por agressão e desacato à autoridade. O vô correu lá para tentar remediar a situação do menino. Depois de contratado advogado, fiança paga, um sabão do delegado e rapaz solto, era hora da reprimenda, de "inzemprá" o malfeitor. Disse:

− Bunito hem, seu porcaria, fazendo bagunça, sendo preso e talecoisa e coisaetale, né?

No que o menino respondeu:

− Meu padrim, inté o sinhor. Inté o senhor fazia o mesmo... Fui cunversá c'o tar de genhero, mor de pidi o imprego e ele fartô cum respeito cumigo. Tasquei nele a mão nas fuça!

− Mas o que foi que ele fez de tão grave?

− Magina o sinhor, quel'óia preu, um home casado, pai de famía, aponta pro culega deslá e fala: cê vai ali e dá o seu cu rico pro rapaz. Quebrei a cara dos doise!

O vô já em tempo de explodir de rir, mas se contendo para demonstrar zanga e autoridade pergunta:

− E o policial porque você ficou brabo com ele também?

Responde espumando, o afilhado:

− Essé otro, essé otro! Quando falei da farta de respeito, me gozô. Disse: pro quê cocê num deu? Aí eu mandei ele a pedra noventa.



*inzemprá – dar o exemplo

*mandar à pedra noventa – xingar a mãe

*orêia seca – servente

Publicação em minha coluna FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS – Rio de Janeiro (RJ), em 21/8/17.

sábado, 26 de agosto de 2017

Pílulas de Cultura 2017 - 001 (N.º 564 - Ano IV)



Publicação de estreia em minha coluna PÍLULAS DE CULTURA no jornal FALACMD – Ano X – N.º 33 – agosto/2017 - pág. 2, em 17/8/17.