sábado, 17 de junho de 2017

Poemas Classificados 2017 - 023 (N.° 494 -Ano III)


Ipezinho. Foto: Francisco Ferreira.

Ceifador



O espantalho do outro lado do espelho

enlaça-me em abraços de feno

e bailamos sobre cabeças de gelo

na Stalingrado arrasada.

Meu cérebro de capim

capta em antenas de vespas

vestais de Atenas

em pensamentos de flor e mel.



Minhas más intenções balouçam

como folhas no vale das pirâmides

a conceber cartadas de amor.

Num horizonte de pedra e pólen

o orvalho matinal prenuncia

dias de sol, doiradas farturas.



Saldamos as dívidas mútuas

no sal de Ló, à entrada de Gomorra,

para que limpos adentremos o submundo

num ajuste final com Hades

que nos permita vermos no olho

das tecelãs do Olimpo.

E não nos faltem amor em grãos

espigas de paz, na farta seara de bênçãos

das estações que se avizinham.



Antes que as valquírias nos colham,

aos pedaços, do interior de Cronos.

Classificado para a revista OCEANOS – vol. 9 – da Sociedade Mundial dos Poetas e Café com Poesia (São Paulo – SP), em 16/6/17.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Textos Publicados 2017 - 37 (N.° 492 - Ano III)

         

Flor Silvestre. Foto: Francisco Ferreira.

Traços

          Isto é inerente ao meu espírito inquieto: estar sempre destruindo meus totens para reconstruí-los mais tarde, numa tentativa de reconectar-me ao sagrado – parte espiritual de minha vida, que num dado momento, me desliguei! – Entretanto mantenho baús cheios de ídolos, representações de minha materialidade, de que, embora me queixe, não consigo me libertar. Gavetas de fantasmas…
          Esta realidade me confunde e faz com que eu me esqueça de quem realmente sou, não o fruto das fantasias que criei para sobreviver. Construindo mentiras com pedaços de verdades, o avesso da realidade, minha própria mitologia. Um código secreto sem palavras-chaves que o decifrem. Fazendo-me acumular muletas que se grudam ao meu corpo como órgãos essenciais, me permitindo caminhar. Meus apêndices…
          Isto fez de mim um ser triste como no sorriso do palhaço – meu próprio reflexo distorcido num espelho oxidado -. Um arremedo das possibilidades daquilo que poderia ter sido, não texto mal traduzido em papel barato, no formato de folhetim.
          E mesmo cercado pela massa turbulenta de rostos conhecidos – já vistos milhares de vezes, jamais vistos ou que jamais se verão – minha alma está deserta. Ainda que em meio ao chapinhar de gentes nesta selva de pedras em estonteante velocidade, meu espírito queda-se inerte. Embora minha boca pronuncie milhares de palavras – na língua mater e em outras -, meus ouvidos as escutem e os morros as ecoem; meu coração permanece mudo. Destarte eu veja e registre cores, fatos e imagens aos milhões, meu ser tateia cego nas sombras.
          O supra-sumo da solidão…

Crônica Publicada no blog MICROESTÓRIA em 15/6/17.

https://microestoria.wordpress.com/2017/06/15/tracos-francisco-ferreira/#more-403


quarta-feira, 14 de junho de 2017

Textos Publicados 2017 - 36 (N.º 491 - Ano III)


Conceição do Mato Dentro. Foto: Francisco Ferreira.

Tempos Difíceis



Sou de um tempo e de um local em que nossas mães e avós se sentavam nas calçadas, enquanto brincávamos na rua e trocavam receitas, orações, simpatias e colocavam as conversas em dia, ainda que não tivessem mais do que o cotidiano para falar. Seus maridos – e invariavelmente elas tinham maridos, excetuando-se um ou outro caso de viuvez – depois do trabalho, passavam na venda para conversar com seus pares e regar a vida com umas doses. Mas, era de praxe que trouxessem cada um, o seu embrulho de pães. Naquela época ainda não se havia criado o mau hábito das sacolas plásticas. O pão era enrolado no famoso “papel de pão” e amarrado com barbante.   Além do pão, traziam a sua presença, o seu olhar severo e protetor e, assim que chegavam, entrávamos e as ruas ficavam livres para o trânsito dos fantasmas. Raras eram as casas em que havia aparelhos de TV e, portanto, nossa diversão eram as brincadeiras nas ruas: queimada, cantigas de roda. E, em casa, a conversa respeitosa com os pais, o rádio de pilhas e o aconchego familiar. Vivíamos saudáveis de corpo e mente, gozávamos de liberdade – bem vigiada, é claro – e éramos simples e felizes.

Sou de uma época em que se respeitava os outros, em que se acolhia de bom grado os conselhos e reprimendas de quem quer que fosse, desde que tivesse mais idade. Em que se pedia licença, se agradecia, se cumprimentava, se chamava de senhor e senhora. As professoras eram Donas Fulanas, nada de tia e você. Não se tinha materiais diferenciados, cada um mais caro e luxuoso do que o outro, incentivando o consumismo precoce e a divisão de classes. Brigas eram comuns, mas sempre entre duas pessoas, não era admissível os massacres que se vêm hoje, quando grupos espancam um único indivíduo. Formava-se a roda em volta dos contendores e, caso a briga “esfriasse” por qualquer motivo, pegavam-se duas pedras e as colocavam perto do pé de cada um e um gaiato qualquer dizia:

− Esta pedra é sua mãe, fulano e aquela outra é a mãe de cicrano. Quem for mais homem pise na mãe do outro.

E a briga refervia. Mas, no dia seguinte, exceto por algum olho roxo e a moral arranhada, estávamos todos em paz e prontos para novas traquinagens. Embora todo o mundo tivesse um canivete ou uma faquinha – que sempre tinha nome de mulher, ou, simplesmente “o faínho” -, ninguém os usava para ferir o outro. Era algo que nos dava a falsa garantia de proteção e infalibilidade.

Nasci em um tempo que ainda se cria na justiça – dos homens e divina -, em que ladrões eram uma raridade e, normalmente, pagavam seus crimes na cadeia. Não eram tatuados e ninguém, em sã consciência diria que “bandido bom é bandido morto”. Em que “careta” era usar drogas e todos conheciam os usuários e os evitavam. Em que o amor e o sexo eram coisas distintas e “se desonrasse, tinha de casar”. Em que a família vinha sempre em primeiríssimo lugar.

Eram tempos difíceis, severos e de pais severíssimos. A liberdade era codificada de acordo com os dogmas de cada família. Mas, entre as casas havia uma cerca viva ou de bambus e todo mundo respeitava o quintal de todo mundo. Não havia muros, nem grades e nem portas e janelas fechadas diuturnamente. Não dávamos trabalho para a polícia, as agências bancárias e dos correios funcionavam em prédios comuns, quase residenciais. Os poucos carros ficavam estacionados nas portas das casas, destrancados e com a chave na ignição. Bicicletas amanheciam esquecidas na rua, qualquer criança acima de cinco anos podia ir à venda e voltar em segurança. Erámos simplesmente felizes.

Publicação semanal em minha coluna fixa FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS, Rio de Janeiro (RJ), em 13/6/17.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Pré-Estreia como Colunista Fixo no blog DARK BOOKS (Pelotas-RS) ( N.°490 - Ano III)


Fonte: Pinterest.com

Olá, povo das Letras!

Atendendo ao gentil convite do Evandro para integrar a equipe do Dark Books, o que me deixa muito honrado e feliz, vou falar um pouco de mim, já que na próxima terça-feira estrearei, de fato, aqui no nosso blog.

Sou o Francisco Ferreira, 48 anos (pelo menos nos próximos 12 dias), sou natural e residente de uma pequena cidade mineira, Conceição do Mato Dentro. Autodidata, blogueiro, poeta, contista, cronista, trovador, me meto a escrever haicais, décimas de cordel, poetrix, aldravia, entre outras coisas. Estou funcionário público estadual. Tenho mais de seiscentas classificações em concursos literários (Brasil, Itália, Portugal), faço parte de cerca de duzentas antologias gráficas, escrevo regularmente em alguns blogs e sites literários. Faço parte de academias e agremiações literárias em RS, PR, RJ, SP, BA. Tenho um livro em PDF, com duzentas trovas na plataforma BOOKESS, “Corolário de Trovas”, um livro de poemas no prelo, “Raízes de Pássaro” e um terceiro, que está inédito, concorrendo em alguns certames: “Relicário Vazio”.

A partir da próxima terça-feira, assinarei uma coluna com resenhas e impressões pessoais sobre filmes e séries de terror e suspense. Espero que o nosso convívio seja duradouro e que eu possa sempre contar com a leitura, comentários e críticas de vocês. Combinado?



Whatsapp: 31 98117 2612

Obs.: tenho twitter, Instagram mas uso muito pouco e estão sempre desatualizados.

Abraços,

Francisco

Publicação de estreia como colunista fixo do blog DARK BOOKS de Pelotas (RS) em 13/6/17.

https://darkbooksblog.blogspot.com.br/2017/06/se-me-permitem-apresento-me.html

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Poemas Publicados 2017 - 028 e 029 e Certificados 2017 - 06 (N.º 489 - Ano III)







Publicação na antologia II ENCONTRO SERTANEJO DE ESCRITORES E LEITORES – Organização: EDIVAN SANTTOS – São Miguel do Aleixo (SE) em 13/5/17 – págs. 50 e 51, recebidos em 6/6/17.

domingo, 11 de junho de 2017

Textos Publicados 2017 - 35 (N.º 488 - Ano III)



Cortiça, o Casca Grossa

 

Tivemos aqui, um amigo, técnico de futebol amador e um sujeito bacana, mas que era uma verdadeira toupeira. Cujo lema de vida era:

−Treitou comigo, tá no coice!

 Tem uma piada que diz: “fulano, para burro só falta penas! Então, não falta nada, haja vista que burros não têm penas.” Mas, se burro tivesse penas, antenas, malhas, listras, qualquer coisa... este nosso amigo os teria todos. Pois bem, como não devo dizer o nome do amigo, doravante o chamarei de Cortiça, o Casca Grossa e contarei alguns episódios em que o nobre Cortiça atuou e de que fui testemunha ocular.

Político e Tanajura

O filho de nosso amigo Cortiça passou no concurso da antiga Caixa Econômica Estadual e tomou posse lá onde o vento faz a curva, no umbigo do Judas...

Menino novo, despreparado pra vida; Cortiça preocupado, cidade com fama de terra de gente brava, daquelas em que o sujeito matava para ver o outro cair. O pai aciona todos os amigos influentes. Por telefone, bilhete, recado, pai-de-santo, sinal de fumaça... Pronto. O menino é transferido para a nossa terra e em segurança. Logo que se espalha a notícia, um político daqueles mais oportunistas chega para o nosso amigo e diz:

−Você viu, né Cortiça? Todo o esforço que fizemos para trazer seu menino para cá. Valeu a pena, mais um cidadão que volta para a nossa cidade. Espero que nas próximas eleições vocês se lembrem disto!

Cortiça, fanho e burro, que sabia que o tal político não tinha movido uma palha para transferir o rapaz, tascou de bate e pronto:

−Cê ta pensano que eu sô tanajura, que ocê infia um toco de pau na minha bunda e eu abro as’asa e saio fazendo barúio? Cê vai tomá sal pro rabo!

E mais uma dezena de impropérios que só o Casca Grossa conhecia.

 

Baile de Gala

Cortiça, sentado na janela de seu quarto, cutucava o nariz (ô, nojento!) com o dedo. Sua vizinha, destas que perde o amigo, mas não perde a piada, cutucou-o (ao Cortiça) também:

−Aí hem, Cortiça, limpando o salão, vai ter baile hoje, né?

Casca grossa que é casca grossa, perde a amiga, mas não perde a deixa, rebateu:

−Não vai se assanhando não, viu? Que piranha não entra.

Revoltada que é revoltada, perde o amigo, mas não perde a chance de provocar uma contenda, avisou:

−Seu grosso, estúpido, (num sei o quê, num sei que lá)... vou contar pro meu pai, viu? ... (num sei o quê, num sei que lá)...

Cortiça, valente e calmo que é valente e calmo perde o amigo, mas não perde a pose, provocou:

−Num adianta convidar não, que veado também não entra.

 

Clonagem

Cortiça, sentado na praça "fiscalizando a natureza" (sua única ocupação), quando passa a Maria Vai co'as Outras e olha em sua direção. O Casca Grossa já se arrepia e pergunta:

−Tá olhando'quê? Nunca me viu não?

Vai co'as Outras, não deixa por menos no quesito "cascagrossice":

−Porquêqui entre tantos feios eu ia olhá justamente pr'ocê? Vai ver se eu tô na esquina?

Cortiça, já emputecendo:

−Peraí que vô l'em casa buscar cabresto e bussal!

Vai co'as outras, também emputecida, retruca:

−Cê é fei'assim ou tá comendo carqueja? Sua mãe não te vende não, ô lubisone?

O Casca Grossa, já babando de raiva e cascagrossice:

−Vende não, mas leva sua mãe l'em casa, que meu pai faz outro igualzinho. Tomô, papuda!

O resto do diálogo, só louco para continuar escutando. E registrar? Nem com bula papal.

São pessoas reais, que convivem ou conviveram conosco e nos enchem de orgulho e saudade. São personagens reais que diuturnamente nos propiciam material para crônicas e contos. Sem eles não haveria como escrever.

Boa semana para todos, com muita gentileza e bom humor.

Publicação em minha coluna fixa FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS (Rio de Janeiro – RJ) em 5/6/17.


http://oceanonoturnodeletras.blogspot.com.br/2017/06/coluna-fiel-da-balanca_5.html