sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Textos Classificados 2017 - 017 (N.º 594 - Ano IV)



O Amor e Seus Reflexos

Ajustamos uns olhares de horas marcadas. Ela, tamponada na janela do quarto da sala, eu, de passagem apressada – modos de correição – como quem ia de compromissos e urgências. Mas qual? Pura vadiagem de menino-homem ainda frango, querendo ensaiar os primeiros cantos de galo.

Assim foi que dei os primeiros passos em terrenos de mulher, em barra de “barra de saia”, em negócios de fêmea. Conforme é muito fácil o percebimento, neste longe ainda não conhecia corpo e gosto de mulher, galalauzinho que eu era. Mas para aprender a ser homem basta o faro. Não carece professor, receita, mapa... nem bússola.

Passa tempo...

Tempo passa e aquilo engrossou o caldo feito mingau em fogo baixo e ganhou patentes e liberdades. A moça iniciou tecidos de muitas agulhas e teias, sentada à porta com os joelhos à mostra. Quem me visse zanzando ali e acolá dizia que eu estava em trabalhos de muitos cargos, cargas e encargos de fiscalização, tantas vezes perneava aquela rua, bem medida, aos passos lentos e curtos, rápidos e longos, com paradas estratégicas.  Certa vez deixei flor mimosa e sem espinhos, colhida na hora, feito bandeira, no mourão da cerca do quintal. Dia seguinte no lugar da flor, em bilhete perfumado, com florezinhas caprichosamente desenhadas e letra redondoza, a palavra: Bobo! – Quase nem acredito. Até hoje...

Num domingo de festas, padres e botinas lustrosas, na fila da comunhão, a moça deu três pancadinhas de dedos no meu cangote e falou:

--Licença!

Fiquei uma semana alisando o lugar que ela me tocou – como uma revoada de mil e mais mil borboletas – a mão da donzela.

Tempo passa...

Passa tempo e o perfeito das alegrias não foi ainda nascido para coração de homem. Pelo menos não para coração de homem pobre. A menina de meu bem querer se jogou de cabeça, trecos e tecidos, em noivado de supetão com um primo lá dela. Rendeu até falatório e coisa e tal. Ele, recém chegado da Mina de Morro Velho, amontado em besta brilhosa, bailarina e barulhenta e, carregando nas costas, além da corcunda, estabilidade de aposentadoria precoce, movida por mal sem cura de pleura, pulmão e fígado. Seco, amarelo e chiador feito peixe-tolo, mas com histórias de uns cobres sobrando na algibeira e ainda mais nos bancos. Diz-se que até talão de cheques. Arrebatou a moça e meu coração. Ela, para o altar e cama de cabeceira alta e, aquele, para o limbo dos corações e paixões desfeitas a força e fórceps. Bebi juras de vingança e morte em copos grandes, “amarrei o lote”, bambeei valentia de garrucha velha e enferrujada na cinta. Nem atirava mais, capaz que. Até que Zé Prefeito, velho sábio e cego de um olho, mas que enxergava mais que toda a nossa gente junta, chamou-me às falas e me segredou conselhos:

--Deixa estar que isto não dura um nada. Nem um mijinho de gato. O rapaz é roncolho e tem pulmão não. A moça larga logo. Ou, mais certo das certezas, é que fica viúva. Viúva e com os cobres do desbagado. Ai você aproveita.

Embirrei. Engoli e vomitei fel de mágoa. Quem que o cego velho pensava que eu fosse? Cachorro pidão? Tatu de cemitério? Anu branco? Matava! Matava e pronto! Mas, semana e meia, depois de mais cinco bebedeiras e explanação de raivas e iras sem fim, atrelei o caso na estaca do esquecimento.

Passa tempo...

Tempo passa e casamento marcado, casamento rezado. Nem bem mês e meio, me chegou por mãos de alcoviteira, carta da desposada prima do mandi. Sem perfumes e nem florezinhas, letras agarranchadas. Mas trazia propostas de gordas safadezas, num papel de embrulhar carne manchada de banha de porco. Isso, dizia:

“Segunda o marido viaja a negócio. Volta só na quarta. Vou fazer um buraco na cerca no fundo do quintal, debaixo do pé de coité e deixar a porta da cozinha só encostada.”

A última réstia de sol daquela segunda flagrou-me  feito lobisomem rondando os fundos da casa do casal, em busca dos fundos da moça. E, a primeira luz da terça-feira ainda me pegou na “rapação” com a mulher do roncador. Mas aquilo aumentou minha revolta: a moça reclamou de tristezas e saudades, amor e outras queixas. Desejei ligeiro e raivoso mil mortes dolorosas e lentas do rival, sem contudo, ser eu a segurar na mão da Pantasma que o levaria para as profundas.

Entretanto, na presença do regalo farto e fácil, degluti a rebelião e esbanjei na tarefa, de eito e empreitada, de sujar, nos lençóis da menina, o nome e a honra do sujeito ladrão dos amores da gente. Este gozo durou pouco mais de meio ano, porém.  Numa segunda, tarde da noite, o ofendido em honra chamou a mulher dele na porta da sala e eu, saí pela da cozinha... Escapei por milagre e mira ruim, do tiro de garrucha que me relampejou na cara e a passou a centímetros de minha orelha esquerda que me deixou surdo por dias e mais dias e, meio mouco, até hoje.

Daí que estou até hoje, 30 anos depois e mais umas tantas quaresmas, correndo do roncolho, feito o diabo, da cruz. E o mandi, ao que me consta, contam e passam recibo, está sem pressa nenhuma de dar seus ossos.  Tempo passa...

Passa tempo. E o tempo é hoje, do agorinha mesmo. Soube deles por novidadeiro de minha terra. Diz que a moça tomou tanto gosto pela safadaria que nunca mais largou do ofício de enfeitar a testa do chiador e que o marido ainda não trabalhou na mira lá dele, já errou mais de dúzia e meia de tiros nos amantes de sua senhora.  Se é roncolho, só Deus, os médicos e a mulher é quem podem dizer. Mas, ao que tudo indica, a mulher é manina, pois nunca tiveram um filho. Nem dele e nem doutros. Estão felizes e em paz!

Conto classificado no PRÊMIO MARIA JOSÉ MALDONADO DE LITERATURA – 2017 da AVL – Academia Volta-redondense de Letras de Volta Redonda (RJ), em 26/9/17.

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