quarta-feira, 3 de maio de 2017

Textos Publicados 2017 - 22 (N.º 467 - Ano III)


Louva Deus. Foto: Francisco Ferreira

Marionetes



Estou convencido de que, quanto mais radicalizamos em nossas convicções ideológicas e tentamos confrontar as convicções daqueles que nos são contrários, tanto mais fazemos o jogo de interesses dos poderes podres e corrompidos, até o pescoço, da Nação. Ao governo interessa esta dicotomia e confrontação entre direita e esquerda (que na verdade nem existe de fato, uma vez que a fronteira ideológica é tênue e sem vigilância. Não há muros, sequer um traço de giz, que delimitem estas correntes no Brasil, elas se confundem, se misturam e se aglutinam de acordo com os interesses), quanto mais se polariza, melhor se domina o lado (que apoia) e se anula o outro (que se opõe). Lendo as postagens sobre as manifestações de ontem, 28 de abril, nas redes sociais  me deparo com, de um lado, os que são favoráveis defendendo o conceito de Greve Geral, da grandeza do movimento e seus efeitos positivos. Do outro, os que são contrários, desaprovando-o, ridicularizando e principalmente tentando criminalizar e partidarizá-lo. Cometem a desfaçatez de generalizar, chamando a todos de vagabundos, vândalos e o escambau.

Ora, houve uma grande manifestação em todo o país de pessoas que são contrárias as reformas propostas pelo executivo que conta com a anuência vergonhosa do legislativo e o olhar complacente do judiciário, sem consulta popular, que é a quem realmente interessa e quem sofrerá os impactos – sejam eles positivos ou negativos -. Houve greves generalizadas, violência e vandalismo tanto dos manifestantes quanto dos órgãos repressores. Houve o grito das ruas. Se surtiram ou surtirão algum efeito, só o tempo poderá dizer. Mas, daí a querer dizer – como foi dito pela mídia aberta – de que era uma meia dúzia de quatro ou cinco gatos pingados, fazendo desordem, é querer tapar o sol com a peneira e de um tendencionismo descabido e vergonhoso. Vejo gente tentando comparar o movimento do Brasil com o da Palestina, para menoscabar o tupiniquim. Isto é o mesmo que comparar o olho do sol, com outros olhos. E, ao fim, tanto lado A, quanto lado B, fazem muito barulho, se digladiam e desviam o foco do que deveria ser de fato e o objetivo comum: pressionar os poderes constituídos para botar a Nação nos trilhos. E em casa onde falta o pão, todo mundo fala, mas ninguém tem razão.

Ao final de tudo, não saímos do lugar, com um lado atacando o outro num debate sem fim e que só interessa a minoria dominante. Enquanto perdemos tempo, gastamos saliva e o nosso latim, quebramos empatia e amizades por sermos radicais em nossas convicções, muitas vezes eivada de vícios e erros. Danificamos nossa saúde ao nos exaltamos e discutirmos, nos enervamos e aumenta o stress, a PA, a pulsação. O debate de ideias que deveria existir e apontar para um consenso e apresentação de soluções, vira uma briga de torcidas, uma cruzada, um bate boca pessoal, ofensivo e inócuo. E, novamente, quem se beneficia disto é quem está no comando das cordas, nos fazendo de marionetes.

O Brasil passa por uma crise sem precedentes, tanto política e econômica, quanto de credibilidade e governabilidade. Talvez seja eu um tanto quanto pessimista e receoso, mas temo demais pelo nosso futuro enquanto Nação democrática. Somos um barril de pólvora, esperando aquela mínima faísca para explodir. O palco está montado, os atores de prontidão e o roteiro recebendo os últimos ajustes para entrar em cartaz a peça “Ditadura Outra Vez”. E o que fazemos nós? Ficamos de mimimi na internet, trocando farpas, insistindo em dar, uns aos outros, as alcunhas de mortadela, coxinha, petralha, reaça, trouxinhas e etc. E, enquanto isto, na Sala da Justiça, nos Palácios e na Caserna são tramadas as cenas dos próximos capítulos...


Crônica publicada na coluna fixa FIEL DA BALANÇA do blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS - Rio de Janeiro (RJ) em 1º/5/17.

http://oceanonoturnodeletras.blogspot.com.br/2017/05/coluna-fiel-da-balanca.html?spref=fb

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