Poema publicado em Revista
ESCRITORES do CLUBE DE ESCRITORES DE PIRACICABA - SP - N.° 271 - Ano XXIII -
Junho/Julho 2017 - pag. 23, em 17/7/17.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
quinta-feira, 27 de julho de 2017
Textos Publicados 2017 - 045 (N.º 534 - Ano IV)
À
minha época, a infância na roça era um tempo de pouco ou quase nenhum brinquedo
industrializado e nenhuma diversão eletrônica, exceto o velho e bom rádio de
pilha (normalmente sintonizado na Rádio Globo do Rio, Rádio Record de São Paulo
ou Rádio Atalaia de Belo Horizonte. Esta última uma espécie de FM quando estas
ainda não existiam. Pelo menos aqui por estas bandas). Mas as crianças não
tinham acesso àquele que era o maior luxo das famílias. E, nos contentávamos em
construir nossos próprios brinquedos, invariavelmente de restos e cacos; de
inventar peripécias, pescar, caçar passarinhos, ouvir as histórias dos mais
velhos (verídicas, lendas e os famosos contos de fada) e trabalhar, que era uma
das formas de entretenimento e, como dizia meu avô: “Trabalho de menino é pouco, mas quem desperdiça é louco!”
Mas um
capítulo à parte em nossas venturas, aventuras e desventuras eram os muitos
perigos a que estávamos sujeitos diuturnamente. Para se ter uma ideia do tanto
de riscos que corríamos vou elencar algumas destas tantas ameaças às nossas
vidinhas de tantas e tão grandes preocupações:
·
Fazer careta (se ventasse,
trovejasse ou o sino tocasse, ficaria assim para sempre. Mas, apesar de crermos
e temermos este destino terrível, não deixávamos de organizar nossos
campeonatos de distorções do rosto);
·
Bater na mãe (a mão secava.
Inclusive, na capelinha perto de minha casa tinha o exemplo do menino, que de
tanto bater na genitora, virou corpo. O padre é que não permitia que crianças
vissem, mas todos os adultos já tinham visto. Desde o início dos tempos);
·
Ser mordido por cágado. (Você
estava literalmente cagado, pois o bicho só soltaria se o sino batesse. Eu pelo
menos, nunca vi um destes quelônios na igreja e nem muito menos ninguém com um
deles agarrado ao dedão. Mas que, se mordesse, era fatal);
·
Dormir nu. (O Anjo da Guarda o
abandonaria.);
·
Brincar com fogo (faria xixi na
cama. Normalmente dormíamos tão preocupados com esta ameaça que, uma vez ou
outra, acontecia. );
·
Contar estrelas (daria verrugas na
mão. Contávamos para conferir se era verdade);
·
Chupar laranja e tomar café logo em
seguida (dava "tiriça", que é um dos nomes a que se davam a
hepatite);
·
Andar de costas (a mãe morreria);
·
Varrer casa com alguém dormindo
(pessoa da família morreria);
·
Dizer que morreram tantos sem a
seguinte imprecação: "Morreram dois! Três com a parede da igreja".
Por exemplo! (Você seria o próximo!)
Mas, driblamos os perigos. Sobrevivemos incólumes a todos eles e,
se assim não fosse, hoje eu não estaria aqui, contando estas histórias para
vocês. Uma excelente semana a todos, sem correr perigos.
Publicação em minha coluna semanal FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO
NOTURNO DE LETRAS – Rio de Janeiro (RJ), em 17/7/17.
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Poemas Publicados 2017 - 042 (N.º 533 - Ano IV)
Arrebol. Foto: Francisco Ferreira.
Perpetuação
Nos desvãos do chão
formiga fincou casa
e ergueu nação.
Nos devaneios da árvore
sabiá fêmea plantou
ovos
e raiz de pura
cantoria.
No embaixo da pedra
besouro rolou tesouros
e construiu novos
escaravelhos.
Nas revoadas de lodo
mandis babam e desbabam
novos cardumes.
O sol desdobra a manhã
e estende,
rega a raiz do dia
e da corda no carrossel
da vida.
Publicação de poema em MEUS POEMAS – COLETIVO DE ESCRITORES - da BECO
DOS POETAS EDITORA – São Paulo (SP), em 15/7/17.
terça-feira, 25 de julho de 2017
Poemas Publicados 2017 - 041 (N.º 532 - Ano IV)
Mariposa. Foto: Francisco Ferreira.
Prosaísmo
Não
sou poeta criativo
que
deglute palavras e regurgita
em
neologismos. Sou prosaico e raquítico.
Mas,
de natureza, a Natureza é prosaica
que compõe,
se compõe e recompõe
de
neopoemas vegeto-minerais.
Eu,
sou prosaico por natureza,
mas de
natureza, poeta.
Se me
manuelizo, mameluco
culpa
é do meu sangue índio puro
de
contaminações brasílicas.
Meu
poema se debate na gira
roda
na roda e “se possessa”
cavalo
de santo da prosa.
Não
sou poeta criativo
dos
que dissecam vocábulos
e os
põe a secar nas pedras
e
folhas do caminho.
Não!
Nenhum poeta tomou-me
Nem
poeta sou-o.
Publicação de poema em MEUS POEMAS – COLETIVO DE ESCRITORES - da BECO
DOS POETAS EDITORA – São Paulo (SP), em 14/7/17.
segunda-feira, 24 de julho de 2017
Poemas Publicados 2017 - 040 (N.º 531 - Ano IV)
Flor de hibisco. Foto: Francisco Ferreira.
Tédio
Vassoura de alecrim
para varrer a casa
e alguns fluidos.
Que os mortos
enterrem os seus e os
fantasmas
em gavetas. Não tenho
esqueletos
nos armários, só dores.
E a vida segue no
compasso
da fila que, cheirando
à lavanda,
anda em passos slow motion.
Nesse passo e compasso
de horas à fio, não
chegará a tempo
de assistir-me a
matar-me de amor.
Portanto, não chore em
meu velório.
Publicação de poema em MEUS POEMAS – COLETIVO
DE ESCRITORES - da BECO DOS POETAS EDITORA – São Paulo (SP), em 13/7/17.
domingo, 23 de julho de 2017
Poemas Classificados 2017 - 028 (N.º 530 - Ano IV)
Flor de cacto. Foto: Francisco Ferreira.
Sons
de Verão
As
cigarras voltarão
à
vida, renascerão nos campos
e o
ofuscarão no auge da melodia
sons
das tardes.
Depois
de um ano de sepulcro
metamorfosear-se-ão
o silêncio
a
copular com a vida
morrerão
de sons.
Carregarão
as tardes
nas
frágeis asas de vidro
a
bater-se contra os ventos.
Preconizando
a boa nova
arrastarão
consigo primaveras.
Em
seus concertos
pássaros,
vidraças se homens loucos
a
desentoar a canção.
Classificada para a REVISTA LITERALIVRE – n.º 04 – Organização: ANA
ROSENRORT, em 13/7/17.
sábado, 22 de julho de 2017
Textos Publicados 2017 - 044 (N.º 529 - Ano IV)
Ipê Rosa. Foto: TLGMorais
A Intolerância Nossa de Todo Dia
Lendo
sobre as cenas de selvageria após o clássico Vasco e Flamengo na noite do
último sábado, no estádio São Januário no Rio de janeiro, em que houve até
morte, me pus a refletir o quanto somos narcisistas e intolerantes, sobretudo
se estamos em grupos, o que nos dá a impressão de invisibilidade e
inimputabilidade. Infelizmente não foi algo inusitado ou isolado, não acontece
apenas no Rio e nem com as torcidas daqueles clubes rivais. Em Belo Horizonte,
há alguns anos, houve um massacre de um torcedor do Cruzeiro por animais
travestidos de torcedores do Galo e nem era dia de jogo ou houvesse alguma
provocação. Simplesmente mataram o rapaz por ser torcedor de outro time, sem
lhe dar a menor oportunidade de se defender. Há uns 20 anos, depois de uma
final da Copa São Paulo de Futebol Junior, houve cenas de assassinato ao vivo
na TV e aquelas imagens ficaram sendo exaustivamente repetidas, por semanas.
Estas cenas se repetem em todos os estados, sejam quais torcidas forem.
Estamos
vivendo num tempo de tamanha intolerância que basta torcermos por um clube que
não seja o da preferência do outro, termos uma posição política que contrarie a
do outro, ou opção sexual, cor da pele, raça, religião “diferentes” que
estaremos sujeitos a sermos achacados em redes sociais, sermos agredidos com
palavras e fisicamente em qualquer lugar que estejamos e até sermos mortos por
isto. E, toda esta intolerância é, a cada dia, mais incentivada nas redes
sociais. São milhões de pessoas exortando o uso de armas, o “fazer justiça” e
repercutindo vídeos e notícias de selvagerias e vinganças como aquele caso do
rapaz que teve sua testa tatuada. De fato, quem comete crimes tem de ser
punido, mas para isto tem de ser julgado e condenado por quem de direito. Se
nos pusermos à caça de todos, por qualquer motivo, um dia também seremos
caçados. E o que mais entristece e preocupa é que esta onda de intolerância
está infiltrada em todas as classes sociais, tanto entre os ignorantes, quanto
entre os intelectuais. Encontram-se intolerantes viscerais entre homens e
mulheres, crianças e idosos, gregos e troianos. E o que mais nos deixa
perplexos é vermos que, em sua maioria, quanto mais intolerantes, mais falam de
Deus, mais postam mensagens de paz, num paradoxo digno de estudos. Numa clara demonstração
daquela máxima do velho cacique da política aqui da roça: “Para os companheiros tudo, para os adversários chibata e água com
sal!”
A morbidez também está
assustadoramente grande: se se tem um acidente, principalmente sendo grave, as
pessoas se põem em risco, parando em rodovias movimentadas para ver, filmar e
fotografar; se há uma briga, ao invés de tentarem evitar, de separarem, ficam
assistindo e filmando; corpos mutilados são fotografados e publicados em redes
sociais; aqui na minha cidade que é pequenininha e que as notícias se espalham
rapidamente, basta que aconteça um acidente ou um assassinato para que a cidade
toda se desloque para o local, o que é deveras lamentável. É degradante ver as
pessoas deixarem seus afazeres domésticos ou no trabalho, saírem de suas casas
com tempo frio ou quente, com sol ou chuva para assistirem “in loco” a desgraça
alheia.
Não é
assim que construiremos a paz. Uma semana de gentilezas e harmonia a todos nós.
Publicação de minha coluna semanal FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE
LETRAS – Rio de Janeiro (RJ), em 11/7/17.
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