sábado, 22 de julho de 2017

Textos Publicados 2017 - 044 (N.º 538 - Ano IV)




Ipê Rosa. Foto: TLGMorais


A Intolerância Nossa de Todo Dia





Lendo sobre as cenas de selvageria após o clássico Vasco e Flamengo na noite do último sábado, no estádio São Januário no Rio de janeiro, em que houve até morte, me pus a refletir o quanto somos narcisistas e intolerantes, sobretudo se estamos em grupos, o que nos dá a impressão de invisibilidade e inimputabilidade. Infelizmente não foi algo inusitado ou isolado, não acontece apenas no Rio e nem com as torcidas daqueles clubes rivais. Em Belo Horizonte, há alguns anos, houve um massacre de um torcedor do Cruzeiro por animais travestidos de torcedores do Galo e nem era dia de jogo ou houvesse alguma provocação. Simplesmente mataram o rapaz por ser torcedor de outro time, sem lhe dar a menor oportunidade de se defender. Há uns 20 anos, depois de uma final da Copa São Paulo de Futebol Junior, houve cenas de assassinato ao vivo na TV e aquelas imagens ficaram sendo exaustivamente repetidas, por semanas. Estas cenas se repetem em todos os estados, sejam quais torcidas forem.


Estamos vivendo num tempo de tamanha intolerância que basta torcermos por um clube que não seja o da preferência do outro, termos uma posição política que contrarie a do outro, ou opção sexual, cor da pele, raça, religião “diferentes” que estaremos sujeitos a sermos achacados em redes sociais, sermos agredidos com palavras e fisicamente em qualquer lugar que estejamos e até sermos mortos por isto. E, toda esta intolerância é, a cada dia, mais incentivada nas redes sociais. São milhões de pessoas exortando o uso de armas, o “fazer justiça” e repercutindo vídeos e notícias de selvagerias e vinganças como aquele caso do rapaz que teve sua testa tatuada. De fato, quem comete crimes tem de ser punido, mas para isto tem de ser julgado e condenado por quem de direito. Se nos pusermos à caça de todos, por qualquer motivo, um dia também seremos caçados. E o que mais entristece e preocupa é que esta onda de intolerância está infiltrada em todas as classes sociais, tanto entre os ignorantes, quanto entre os intelectuais. Encontram-se intolerantes viscerais entre homens e mulheres, crianças e idosos, gregos e troianos. E o que mais nos deixa perplexos é vermos que, em sua maioria, quanto mais intolerantes, mais falam de Deus, mais postam mensagens de paz, num paradoxo digno de estudos. Numa clara demonstração daquela máxima do velho cacique da política aqui da roça: “Para os companheiros tudo, para os adversários chibata e água com sal!”


A morbidez também está assustadoramente grande: se se tem um acidente, principalmente sendo grave, as pessoas se põem em risco, parando em rodovias movimentadas para ver, filmar e fotografar; se há uma briga, ao invés de tentarem evitar, de separarem, ficam assistindo e filmando; corpos mutilados são fotografados e publicados em redes sociais; aqui na minha cidade que é pequenininha e que as notícias se espalham rapidamente, basta que aconteça um acidente ou um assassinato para que a cidade toda se desloque para o local, o que é deveras lamentável. É degradante ver as pessoas deixarem seus afazeres domésticos ou no trabalho, saírem de suas casas com tempo frio ou quente, com sol ou chuva para assistirem “in loco” a desgraça alheia.


Não é assim que construiremos a paz. Uma semana de gentilezas e harmonia a todos nós.



Publicação de minha coluna semanal FIEL DA BALANÇA no blog OCEANO NOTURNO DE LETRAS – Rio de Janeiro (RJ), em 11/7/17.




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