segunda-feira, 13 de março de 2017

Textos Publicados 2017 - 17 (N.º 434 - Ano III)


Pixirica, Foto: Francisco Ferreira.

Seu Antônio do Padre – O Frasista



O Sr. Antônio do Padre era solteirão iletrado, mas de muita sapiência, que vivia na Fazenda do Morais, de propriedade de um tio meu. Por ter sido criado pelos padres (daí a alcunha) era de grande devoção, respeitador, educado e muito severo no vestir: não dispensando o surrado paletó nem no desempenho das tarefas que desempenhava na fazenda. Dentre elas, lambicar a famosa cachaça Apolo XI, que, infelizmente não é mais fabricada. Apesar da austeridade com que foi criado, desde cedo demonstrou inclinação para bom apreciador de uma branquinha, paquerador (se bem que, a maioria de suas paqueras, não passassem de ilusões criadas por sua mente quase inocente), valentia inofensiva, pois sempre que se arvorava em bravatas de tiros, porretadas e facadas, não tinha adversários, pelo respeito à sua idade, seus modos e sua condição física. Era um Quixote mineiro a bater-se contra moinhos imaginários. Além de ser esta figura pitoresca, era um filósofo capiau que deixou pérolas pelo seu conteúdo humorístico. Como as que reproduzo a seguir:

De certa vez, apaixonado pela Marli, uns 40 anos mais jovem do que ele, fazia vistas grossas ao namoro da pretendida com o seu sobrinho Bastião! Teve noivado, peditório e etc. Até que, marcado o casamento, ele não só bebeu e quis brigar, como também se negou a ir às bodas. Consumado o inevitável e com os noivos em viajem de lua de mel, queixou-se muito aborrecido e suspiroso: “Não despediram de mim, mas... adeus ingrata!”

De outra feita, a casa cheia de sobrinhos da cidade em época de férias, adolescentes barulhentos e ele, o Seu Antônio, incomodado com o ri-ri-ri de um magote de moçoilas e rapazes na varanda, proferiu esta: “Eu sou igual ao Compadre João, rio sem mostrar os dentes”. Nem é preciso dizer que esta frase, além de se tornar antológica em família, rendeu mais uma semana de gargalhadas, para desconsolo do nobre senhor.

Quando saía para tomar umas e outras, era um capítulo à parte nas peripécias do Seu Antônio, ficar logo muito valente e estufando o peito esquelético, sob o indispensável paletó, de dedo em riste na porta do boteco do Melquíades, lascava: "Comigo é assim: pato num bota! Se botá, num choca! Se chocá, num tira! Se tirá num cria e, se criá, eu mato!" E ainda na fase bêbado-valente: "Eu, sou-me eu, e jacarés é um bicho!"

E a que eu mais aprecio: bêbado-valente-romântico, muito apaixonado, ao ver passar a Marli, cheio de sua empáfia peculiar, dizia: "Marli, minha frô de fremosura, cê é minha e boi num lambe. Se lambê, eu cort'a língua!"

Não cortou língua de boi nenhum, que houvesse lambido ou não a mão da sua Marli, não matou, feriu ou mesmo agrediu fisicamente a ninguém. Era apenas um velho senhor de alma pura e sonhadora, criado pelos padres e que partiu desta vida deixando, além de bons serviços prestados e muita gentileza espalhada, uma série de frases e cenas que enriquecem o anedotário da família, que até hoje, nos fazem rir a valer em nossos encontros.

Sua bênção, Sr. Antônio do Padre, deve estar divertindo muito a Deus e suas falanges no infinito. Boa semana e com muitas gargalhadas a todos e, se virem por aí o Seu Antônio do Padre, deem-lhe um forte abraço e digam-lhe de minha saudade.

Publicação da semana no blog OCEANO NOTURMO DE LETRAS (Rio de Janeiro -  RJ) – Coluna: FIEL DA BALANÇA, em 12/3/17.


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