domingo, 5 de fevereiro de 2017

Textos Publicados 2017 - 06 (N.º 406 - Ano III)


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Bestas Humanas

 Nesta semana que passou tivemos a triste oportunidade de presenciar um evento dos mais degradantes e que nos fez repensar sobre como é desumano ser humano. Foi muito veiculado em redes sociais, seres humanos(?) regozijando-se, fazendo piadas de gosto duvidosíssimo e alegrando-se com a gravidade da doença da ex-primeira dama. Isto doeu-me e me envergonhou como a um soco na cara. Há que ponto o ser humano pode se tornar tão baixo e mesquinho pela paixão ideológica ou clubística? Ora, independente da corrente política que a pessoa siga, de para qual time ela torça ou quaisquer das suas escolhas individuais, a senhora em questão merecia, no mínimo, o respeito como ser humano e com direito à vida, tanto quanto qualquer outra pessoa.
Fez-me lembrar de uma frase que, na época em que a ouvi pela primeira vez, causou-me estranheza e asco, porém, com o passar do tempo, passei a vê-la com olhos de maior condescendência. A frase em questão é: “quanto mais conheço as pessoas, tanto mais gosto dos meus cachorros”. Sou daqueles que respeitam e amam a vida, seja ela vegetal, animal ou humana, e não poderia me furtar de expressar minha revolta com tamanho despautério e vilania. Acredito que toda e qualquer forma de existência é importante e deve ser respeitada, valorizada, conservada e protegida. E pergunto-me: que nível de infelicidade é este que leva alguém a se alegrar com a doença alheia? Que morbidez, insensibilidade e incompetência moral e espiritual é esta? Lembrou-me também do presidente daquele clube rebaixado para a segunda divisão, no ano que passou, considerando o mal desempenho, a má gestão e a incompetência de seu time, tragédia maior do que as 71 mortes do voo que vitimou a Chapecoense.  Daí, é impossível não preferir os meus cachorros a essas bestas que insistem em ostentar um título que não lhas pertence, o título de seres humanos.
É notório que vivemos a era do egoísmo absoluto do “toma lá e dá cá”, ou da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, entretanto é inconcebível a atrocidade de se desejar a morte de outrem por quaisquer motivos, muito mais quando e se estes motivos são unicamente ideológicos. “Todo mundo tem direito a vida e todo mundo tem direito igual”, como reza a canção Rua da Passagem de Arnaldo Antunes e Lenine. Acredito que para carregar o rótulo – embora os odeie – de ser humano o ser deva ser, de fato, humano e isto exige que ela seja humanista, solidário, democrata, sensível, gregário e que veja no outro a sua própria representação, enquanto espécie.  Mas, para estes infelizes, parece que a sua própria humanidade seja um fardo e não motivo de orgulho, vivam com ódio ao mundo e aos membros de sua mesma espécie e que queiram se vingar de sua infelicidade em qualquer um que tenha uma projeção um pouco maior do que a deles. Sua incapacidade é tamanha que o simples fato do outro existir já lhes é motivo de intolerância. E fazem ainda mais verdadeira e atual a frase do grande João Guimarães Rosa quando afirma: “viver é muito perigoso.”
Publicação da semana no blog OCEANO NOTURMO DE LETRAS (Rio de Janeiro -  RJ) – Coluna: FIEL DA BALANÇA em 30/1/17.




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