sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Textos Publicados 2017 - 07 (N.º 411 - Ano III)


Flores Silvestres. Foto: Francisco Ferreira.

Recompensa



         Acredito que nossas ações reflitam fielmente o que trazemos em nosso coração e alma. São como nossas assinaturas no cotidiano do mundo.  Assim como creio também que colhamos os frutos de nossos atos no momento imediato em que os praticamos, mesmo que não saibamos disto naquele instante. Há um adágio bastante difundido na região em que moro, aqui no Brasil, que diz: “Deus não dorme!” E, de fato, a onisciência e onipresença de Deus não falham e nem nos faltam nunca. Jamais faltarão.

         De certa feita, trabalhava eu no escritório de uma construtora que executava uma obra em minha cidade natal e contratei numa sexta-feira, em nome da empresa, um moço oriundo da zona rural para trabalhara na obra, com início imediato. Já na segunda-feira seguinte notei que no horário de almoço, o rapaz se distanciou e ficou perambulando pelos quintais da chácara onde funcionava o escritório da empresa. Aquela atitude dele incomodou-me bastante. Fui para casa naquele dia preocupado, com a sensação de que tinha de fazer alguma coisa.

          A refeição que era servida aos funcionários do escritório (em que eu estava incluído) provinha de um restaurante, já a dos demais funcionários da obra, os mesmos traziam-nas de suas próprias residências. Na terça-feira, portanto, no dia seguinte, reparti em duas porções iguais a refeição que era destinada a mim e, chamando o rapaz, para falar em particular, perguntei-lhe porque não estava almoçando juntamente com os outros funcionários, ao que ele me respondeu que como havia vindo da zona rural, não tinha trazido nenhum dinheiro e que há dois dias não se alimentava. Ofereci-lhe aquela porção que eu havia reservado e pedi-lhe que me procurasse em minha sala, após o expediente (sempre trabalhava uma hora a mais do que os outros funcionários). Quando o recebi, expliquei-lhe que a empresa concedia um adiantamento de salários quinzenal, mas apenas após o primeiro mês de trabalho.  Mas, que se ele não se incomodasse, iria adiantá-lo o valor de uma quinzena, de meus próprios recursos e que quando ele recebesse seus salários, me ressarcisse.

          Este meu ato, que eu teria para com qualquer outro ser humano na mesma situação, foi desprovido da intenção de receber qualquer coisa em troca. Não passou de mera solidariedade, pelo qual eu não esperava nenhuma recompensa no momento e nem em tempo algum. E esqueci-me daquilo. Alguns anos depois revi uma pessoa que me é muito cara e que já não nos víamos há bastante tempo. Ao longo de nossa conversa, esta pessoa querida, relatou-me que, na mesma época deste acontecido, recebeu de um companheiro de trabalho a mesma solidariedade. Havia mudado de emprego e passava por severas dificuldades e privações e que, nas palavras dele: “havia encontrado um Anjo da Guarda que o poupou de passar fome”.

         Ao ouvir o seu relato, percebi claramente a onisciência de Deus agindo naquele momento e retribuindo-me a solidariedade que tive para com aquele moço, na pessoa do meu amigo. A promessa de Cristo é perfeita e infalível, quando nos diz: “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos, é a mim que o fazeis.” (Mt 25,40). Uma feliz semana de solidariedade para todos.

Publicação da semana (sexta) no blog Dias d’oje (Lisboa – POR) – Coluna: REFLAXÃO DA SEMANA

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