quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Textos Publicados 2017 - 10 (N.º 416 - Ano III)


Flor Silvestre. Foto: Francisco Ferreira.

Natal... qual?



          Lá nas margens do Córrego do Lavrado, na vila de São José do Córrego do Lavrado, mais conhecida por Corgo da Precata, o moço recém casado, querendo fazer um mimo à esposa que esperava pelo primeiro rebento (provavelmente o primeiro de uma enorme prole, já que aquele povo era devoto de São Bento: um fora, um dentro e outro no pensamento), parou de beber e de jogar vinte e um e caixeta, economizou uns cobres e comprou uma leitoa para lisar para o Natal. Atravessou a dita cuja, devidamente amarrada pelas quatro patas - berrando de medo e stress - e ribitou para casa, mais “feliz do que pinto no lixo” ou “galinha que bota no chiqueiro”. Em casa, cheiro no cangote da esposa e diz, babando mel, de tanta doçura:

         -- Esta leituinha é pro seu natale, fia! Cê cuida direitinho dela.

         Botou reparo na frieza da mulher com o presente, mas não fez caso. Pensou que fosse do estado interessante dela  e amarrou a marrãzinha pelo pé, ali mesmo perto da bica. Todo xasquento de poder fazer um agrado à menina “seus amô”.

          Acontece que, ali próximo, havia a venda do Sr. Natal – única da comunidade e que, portanto, praticava os preços que bem queria, sempre muito acima das vendas da cidade – e a quem todos chamavam de Seu Natale. Pois bem, a tal da porquinnha, enxerida como é toda porquinha, deu de fossar nas plantas e folhagens da dona da casa. A mulher jogava água, terra, pedra e por fim, até – que Deus me perdoe – deu-lhe umas coças de bambu do reino, mas nada. A porca destruía tudo. Deu que na véspera do natal, passa por lá o Sr. Natal (o dono da venda, se antecipando, no calemdário) e a moça, solícita e ardilosa como ela só, o chama:



       -- Seu Natale, meu marido disse que esta leitchoa era do sinhô. O sinhô pudia bem fazê o favô de levá, mode ela pará de fussar as minha pranta.



Natal, estranhou o presente, mas “cavalo dado é cavalado dado e não se olha os dentes”, deu de mão na bacorinha e levou pra casa todo pimpão. O moço, na volta para casa, já com a quicé afiada, pronto para fazer o serviço na porca, não a encontrando, corre esbaforido para a cafua, questionando a esposa:



          -- Oh, fia. Num viu que rumo tomô a leituinha do seu natale?

         -- Ari’essa Zé, intreguei ela pru dono. Pro seu Natale.

O rapaz ficou com de quem levou coice de mula ou mesmo viu assombração, alma apenada ou lobisomem e passou uma carraspana na senhora sua esposa:

        -- Muié dinsifiliz, era pro seu natale, dia 25 de dezembro e não pra’quele ladrão du’a figa!

        -- Ocê laiga de cê besta Zé, e, d’otra vez ocê exprica. – respondeu a mulher de Zé com “cara de cachorrinho que quebrou panela”. Emburrou e fez greve até o Dia de Reis, quando enfim, desmontaram o presépio da Capela de São José e sua raiva passou.

Publicação da semana no blog OCEANO NOTURMO DE LETRAS (Rio de Janeiro -  RJ) – Coluna: FIEL DA BALANÇA em 14/2/17.


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